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Voto 013/11 - Voto de Pesar Gastão Cruz - o Poeta
22-03-2022

Agendado: 13ª reunião, 22 de Março 2022
Debatido e votado: 13ª reunião, 22 de Março 2022
Resultado da Votação: Aprovado por unanimidade

Faleceu em Lisboa no passado dia 20 de Março, o poeta, crítico literário, escritor, encenador e tradutor Gastão Santana Franco da Cruz, nascido em Faro, a 20 de Julho de 1941.

A poesia acompanha-o desde muito novo. Com apenas 19 anos, Gastão Cruz, manifestando já um grande apego pelo texto poético, começou a colaborar com poemas e artigos sobre poesia em diversos jornais e revistas, entre os quais os 'Cadernos do Meio-Dia', publicados em Faro, sob a direcção de António Ramos Rosa e Casimiro de Brito.

De acordo com a sua biografia literária, participa com a sua primeira obra 'A Morte Percutiva' no volume colectivo intitulado 'Poesia 61', que compila textos de uma plêiade de cinco jovens poetas - Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta -, considerada uma das principais contribuições para a renovação da linguagem poética portuguesa na década de 60 do século passado, e descrita pelo próprio como "em grande parte, uma reunião de conveniência editorial".

Licenciado em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1958), onde teria como professor David Mourão-Ferreira, viria a leccionar no ensino secundário desde 1963, tendo exercido entre 1980 e 1986 as funções de Leitor de Português na Universidade de Londres (King's College), onde além de Língua Portuguesa, leccionou cadeiras de Poesia, Drama e Literatura Portuguesa. O percurso literário de Gastão Cruz inclui a tradução de nomes como William Blake, Jean Cocteau, Jude Stéfan e William Shakespeare.

Ainda no período universitário, e após ter sido preso por ter participado activamente nas greves académicas de 1962, o autor foi um dos organizadores da Antologia de Poesia Universitária (1964), dando a conhecer poemas de Manuel Alegre, Eduardo Prado Coelho, António Torrado, José Carlos Vasconcelos, Luísa Ducla Soares ou Boaventura Sousa Santos, entre outros. Este importante papel de Gastão Cruz na divulgação, promoção e crítica da poesia e da literatura em geral, bem como do teatro e da música, prolonga-se quer em colaborações na imprensa, posteriormente reunidas no ensaio 'A Poesia Portuguesa Hoje' (1973) e na organização de antologias, quer na direcção de recitais, já desde os tempos da Faculdade.

Da amizade com Fiama, com quem foi casado, nasceu a paixão pelo teatro. Desde o início dos anos 70, estiveram ambos na génese do Grupo Teatro Hoje/Teatro da Graça, e do qual foi director desde 1991 até à sua extinção em 1994. Traduziu títulos dramáticos de, entre outros autores, Strindberg, Shakespeare ('Conto de Inverno') ou Cocteau. Ali encenou peças de Crommelynck, Strindberg, Camus, Tchekov ou uma adaptação sua de 'Uma Abelha na Chuva' (1977), de Carlos de Oliveira. Algumas destas obras foram, pela primeira vez, traduzidas para português pelo poeta. Foi um dos directores da Fundação Luís Miguel Nava e da revista 'Relâmpago', por ela editada.

Gastão Cruz revelou-se como um grande conhecedor da tradição poética portuguesa, existindo nos seus poemas uma profunda intertextualidade, tanto relativa a poetas portugueses como estrangeiros, principalmente de língua inglesa. Se no início começaria por assumir uma escrita experimentalista, viria depois a adoptar formas clássicas como o soneto e a canção, que, desde os anos 60, reflectem a influência de Camões.

Pela sua forte ligação à terra onde nasceu, o autor sente uma grande revolta quando olha para o que o rodeia. A destruição do cenário que o viu nascer e crescer, nomeadamente o da Ilha de Faro onde passava as férias de Verão, o mar, a areia, os cardos, as plantas e os seus aromas, revisitando a infância e a então desaparecida casa onde nascera, numa obra a que deu precisamente o nome de 'Rua de Portugal' (2002), mas, sobretudo, pelo silêncio e o isolamento, temas recorrentes na sua poética, a par de temas tão diversos como a dor, a metamorfose, a guerra colonial ('Outro Nome', 'Escassez' e 'As Aves', 1969) ou a morte ('As Pedras Negras', 1995).

As quatro recolhas de toda a sua poesia e a antologia que organizou (1974, 1983, 1990/1992, 1999), acabam por corresponder ao encerrar de determinadas fases temáticas, onde a morte e o corpo - Manuel Gusmão fala mesmo de uma tensão permanente entre Eros e Thanatos - são duas das metáforas mais usadas pelo poeta, correspondendo a significados tão diferentes quanto a esperança, o desespero, o amor e o sexo, o caos, o próprio País, a opressão ou a fugacidade.

Autor de uma obra muito diversa, o seu texto 'A Vida da Poesia' seria recomendado para o Ensino Secundário, como sugestão de leitura no Plano Nacional de Leitura. Entre outros títulos publicou 'A Morte Percutiva' (1961), 'Campânula' (1978), 'Transe' (1960-1990), 'Poesia reunida' (1999), 'Escarpas' (2010), 'Observação do Verão' (2011), 'Óxido' (2015).

Ao longo da carreira, recebeu, entre outros, o Prémio D. Diniz, em 2000, pelo livro 'Crateras', o Prémio do P.E.N. Clube Português de Poesia, em 1985, 2007 e 2014, respetivamente, pelas obras 'O Pianista', 'A Moeda do Tempo' e 'Fogo'. A sua obra 'Rua de Portugal' recebeu o Grande Prémio de Poesia CTT - Correios de Portugal, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), em 2002, e ainda o Grande Prémio de Literatura dst, em 2005, por 'Repercussão', e ainda o Prémio Literário Correntes d'Escritas/Casino da Póvoa, em 2009,de novo com 'A Moeda do Tempo'.

Em 2013, a Fundação Inês de Castro homenageou o poeta atribuindo-lhe o Prémio Tributo de Consagração. Em 2014 obteria o Prémio Portugal Telecom Poesia, renomeado como Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa, considerado um dos prémios literários mais importantes entre os países de língua portuguesa, a par do Prémio Camões ou Prémio Jabuti, considerado o equivalente lusófono do galardão britânico Man Booker Prize, pelas semelhanças das suas regras e alto valor financeiro. Em 2019, volta a ser premiado pela APE com o Grande Prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho, e com o Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa 2019, pela obra 'Existência' (2017).

Em 2018, foi distinguido com a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Governo português, "em reconhecimento do inestimável trabalho de uma vida dedicada à poesia , à produção literária e à escrita, difundindo amplamente a Língua e a Cultura portuguesas, ao longo de mais de 50 anos".

Finalmente, a 8 de Novembro de 2019, seria ainda agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Neste sentido, a Assembleia Municipal de Lisboa delibera, na sequência da presente proposta do Grupo Municipal do Partido Ecologista Os Verdes:

1 - Prestar as mais sentidas condolências, guardando um minuto de silêncio em memória de Gastão Cruz.

2 - Remeter o presente voto de pesar à Presidência da República, ao Ministério da Cultura, à Câmara Municipal de Lisboa e todos os seus vereadores, à Sociedade Portuguesa de Autores, à Associação Portuguesa de Escritores e, por seu intermédio, à família enlutada.

Assembleia Municipal de Lisboa, 22 de Março de 2022
O Grupo Municipal do Partido Ecologista Os Verdes
Cláudia Madeira
J. L. Sobreda Antunes

Documentos
Documento em formato application/pdf 20220322 Voto de Pesar Gastão Cruz - o Poeta454 Kb