Assembleia Municipal de Lisboa
Voto 124/05 (Mesa) - Pesar pelo falecimento de Gonçalo Ribeiro Telles
17-11-2020

Agendado: 17 de Novembro 2020
Debatido e votado: 17 de Novembro
Resultado da Votação: Aprovado por unanimidade
Passou a Deliberação:
Publicação em BM:

VOTO DE PESAR GONÇALO RIBEIRO TELLES

No passado dia 11 de Novembro, a nação portuguesa acordou com a notícia da morte de Gonçalo Ribeiro Telles, aos 98 anos de idade. Acordámos com um luto sentido, mas também com um raro orgulho, por tudo aquilo que este verdadeiro Mestre fez pelos portugueses, pelo País e pelo ambiente.

Gonçalo Ribeiro Telles nasceu em Lisboa a 25 de Maio de 1922, na Avenida da Liberdade, pleno centro de Lisboa, ligação a esta cidade que o marcou desde novo e que em muito terá contribuído para a sua paixão pela capital de Portugal. Em 1950, licenciou-se em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa e, sentindo já o desejo de transformar as paisagens portuguesas, escolheu, em 1952, a mesma instituição para se formar em Arquitectura Paisagista, integrando a primeira geração de Arquitectos Paisagistas formados em Portugal.

Esse percurso profissional inovador foi-se cumprindo como 2º Assistente além de quadro do Curso Livre de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia entre 1957 e 1963, na docência dos Cursos de Planeamento Regional e Urbano e Engenharia Sanitária da Universidade Técnica de Lisboa, entre 73 e 75, coordenando ainda a Secção de Arquitectura Paisagista do Instituto Superior de Agronomia, de 88 a 92, em paralelo com o exercício de Professor catedrático da Universidade de Évora desde 1976, de onde se jubila em Setembro de 1992, sendo a partir de então Professor do Mestrado em Recuperação do Património Arquitectónico e Paisagístico.

Pensador, projectista, professor, membro do governo, legislador, deputado e vereador, defensor de muitas causas, desempenhou um papel significativo nos momentos decisivos da história contemporânea portuguesa, tendo desde cedo sentido o chamamento da participação e do envolvimento em causas nas quais entendia dever responder "presente", e marcar posição.

Católico e Monárquico, envolve-se cedo na política, vindo a ter uma forte intervenção cívica, fundando e sendo presidente da Juventude Agrária e Rural Católica (JAC).

Em 1957, com Francisco Sousa Tavares, funda o Movimento dos Monárquicos Independentes (MMI). Segue-se a fundação do Movimento dos Monárquicos Populares (MMP), demonstrando desta forma, a sua oposição à ditadura do Estado Novo.

Em 1958, nas eleições presidenciais, declara o seu apoio a Humberto Delgado, o General sem medo, integrando, em 1969, a Comissão Eleitoral Monárquica (CEM) que se junta às listas da Acção Socialista Portuguesa, de Mário Soares, na coligação Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD) para concorrer à Assembleia Nacional. Dois anos depois, em 1971, ajuda a fundar o Movimento Convergência Monárquica.

Sendo assumidamente monárquico por toda a vida, torna-se um dos fundadores do Partido Popular Monárquico (PPM), logo após a Revolução de Abril, integrando, em 1979, a Aliança Democrática (AD), com o PSD de Francisco Sá-Carneiro e o CDS de Freitas do Amaral.

Profundamente democrata e humanista, e arquitecto paisagista, foi o principal responsável pelo lançamento de uma política de ambiente, ordenamento do território e sustentabilidade em Portugal. Entre 1974 e 1976, assumiu funções como Subsecretário Estado do Ambiente e Secretário de Estado do Ambiente.

Enquanto Ministro da Qualidade de Vida, o arquitecto paisagista foi responsável pelas áreas dos desportos e do ambiente de 1981 a 83 (VIII Governo Constitucional), tendo lançado as bases de uma política nacional de ordenamento do território, criando a Reserva Agrícola Nacional (RAN) e a Reserva Ecológica Nacional (REN) e a consciência para o desenvolvimento do PDM (Plano Diretor Municipal).

Passou pela Assembleia da República, tendo sido eleito deputado em 1975 pelo Partido Popular Monárquico, que abandona em 1984, e em 85 torna-se deputado independente pelo PS. Foi também em 85 que assumiu o cargo de Vereador da Câmara Municipal de Lisboa pelo Movimento Alfacinha, que tinha ajudado a fundar um ano antes.

Em 1993 Ribeiro Telles funda o Movimento Partido da Terra (MPT), tendo sido seu Presidente honorário desde 2007.

Da sua passagem pelo Governo releva-se a proposta da seguinte legislação:

  • Defesa dos melhores solos agrícolas (1975);
  • Defesa do coberto vegetal e do relevo natural (1975);
  • Criação de estrutura de protecção ecológica e do património construído (1976);
  • Condicionamento e recuperação da extracção de inertes (1982);
  • Reserva Agrícola Nacional (1983);
  • Reserva Ecológica Nacional (1983);
  • Planos Regionais de Ordenamento do Território (1983).

Na Assembleia da República destacam-se as seguintes propostas: Lei de Bases do Ambiente; Lei da Regionalização; Lei dos Baldios.

Enquanto vereador da Câmara Municipal de Lisboa, referem-se as propostas de criação do Parque Periférico e do Corredor Verde de ligação do Parque Eduardo VII ao Parque Florestal de Monsanto.

Dos diversos projectos que Gonçalo Ribeiro Telles deixa como seu legado para a história da arquitectura paisagista em Portugal, destacamos o Jardim do Palácio Mateus em Vila Real, o Corredor Verde de Monsanto, o Jardim da Capela de São Jerónimo em Belém, a Mata dos Medos em Almada, o Bairro das Estacas em Alvalade, o Jardim Amália Rodrigues em Lisboa, a Mata de Alvalade em Lisboa, os Jardins do Castelo de São Jorge e, aquela que talvez seja a sua obra mais conhecida e reconhecida, o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, assinado em conjunto com António Viana Barreto e que foi distinguido com o Prémio Valmor em 1975.

Para o seu prolongamento, actualmente em construção para a parte da Praça de Espanha, foi agora proposto por Fernando Medina, Presidente da Câmara de Lisboa, o nome "Jardim Gonçalo Ribeiro Telles", em justa homenagem da sua cidade.

Recebendo inúmeras condecorações, tendo sido agraciado com o Grau de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago (1969), a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1988), e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (1990), o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe (2013), tido como o "Prémio Nobel da Arquitectura Paisagista", concedido pelo trabalho e contribuições ao longo da vida que tiveram um impacto incomparável e duradouro sobre o bem-estar das pessoas, o ambiente e a promoção da profissão, veio representar o auge do seu reconhecimento, e a verdadeira consagração internacional.

Foi com este visionário português, que inspirou gerações de arquitectos paisagistas, que deixou um legado de ensinamentos e de esperança, que chumbou no primeiro exame para a carta de condução - por em pleno exame entrar por uma rua de sentido proibido e responder ao examinador, "não, não vi o sinal vi foi aquela maravilhosa buganvília" - que Portugal começou a pensar de forma ecológica e sustentável.

Gonçalo Ribeiro Telles, o homem que em reposta à pergunta, "Que árvore escolheria para o representar?", lançada numa entrevista, disse simplesmente:

Um sobreiro. É uma árvore que conheço desde pequenino. Quando me perguntam para onde vou fugir, respondo sempre: para o montado. Sabe o que é o mistério do montado? É a gente entrar, não conhecer os caminhos e só ver troncos à frente. Tudo pode surgir e tudo acontece sem parar. No montado temos sempre pela frente o mistério. Também assim é a Eternidade

Muito Obrigado, Senhor Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles.

Por tudo isto, A Assembleia Municipal, reunida em sessão plenária no dia 17 de Novembro de 2020, manifesta o seu mais profundo pesar, guardando um minuto de silêncio em sua memória, e dando conhecimento deste voto à família.

Lisboa, 17 de Novembro de 2020

O Presidente
José Leitão

O 1.º Secretário
António Avelãs

O 2.º Secretário
Virgínia Estorninho

Documentos
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