Assembleia Municipal de Lisboa
Foto de Jorge Amaral
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Proposta segue para discussão pública
Dois túneis até ao final de 2019 para Lisboa ter menos cheias
14-07-2015 Inês Banha, DN

Canal de maior dimensão vai ligar Monsanto a Santa Apolónia. Obras devem começar no início de 2016 e, diz a autarquia, não causarão condicionamentos à superfície. Proposta _(aprovada
pela Câmara em 15 de julho)_ ainda vai a discussão pública.

Um túnel com cinco quilómetros de extensão e cinco metros de diâmetro entre Monsanto e Santa Apolónia e um outro com um comprimento de um quilómetro de Chelas ao Beato, a construir entre meados do próximo ano e o final de 2019, são os dois grandes projetos previstos na revisão do Plano Geral de Drenagem de Lisboa, que a partir de amanhã e até ao final de setembro deverá estar em discussão pública.

A proposta, apresentada ontem pelo presidente da câmara municipal, Fernando Medina (PS), prevê que, entre 2016 e 2030, sejam investidos cerca de 170 milhões de euros na execução do programa de mitigação de cheias na cidade, quase cem milhões dos quais nos primeiros cinco anos. A solução é vista com "preocupação" pelos representantes do PCP, enquanto os deputados municipais do PSD e do CDS-PP lamentam que se tenham "perdido" sete anos e que a versão inicial do documento, aprovada em 2008, não tenha sido concretizada. "Este é seguramente o projeto mais importante e mais estruturante das últimas décadas para o futuro da cidade de Lisboa", começou por sublinhar, numa conferência de imprensa nos Paços do Concelho, o líder da autarquia. Ressalvando que nunca será possível "eliminar por completo a ocorrência de cheias" na capital, Fernando Medina assegurou que a solução ontem divulgada publicamente considerará "reduzir significativamente" o número de inundações na cidade.

Na prática, trata-se de edificar uma "grande barreira que desvia da zona baixa da cidade uma parte importante dos caudais de água responsáveis pelas inundações mais severas" e que se traduz, sobretudo, na construção de dois túneis com cinco metros de diâmetro. O mais longo, com cinco quilómetros de extensão, terá início junto à estação de Campolide, receberá ao longo do seu percurso a água de diversas bacias hidrográficas e só terminará em Santa Apolónia, junto ao Tejo.

A sua profundidade pode chegar a atingir os 70 metros e, na Avenida Almirante Reis, a previsão é de que passe sob a linha do metropolitano. A autarquia garante ainda, no vídeo de apresentação do projeto, que a sua edificação não causará "quaisquer condicionamentos à superfície", graças à utilização de uma tuneladora, uma máquina que escava túneis circulares.

Menos danos na vida da cidade
O facto de causar menos danos à vida da cidade é. De resto, um dos argumentos da autarquia para justificar a opção por um túnel de maior comprimento em detrimento da construção, como fora definido na versão de 2008, de reservatórios enterrados em Alcântara que, "para produzirem efeitos significativos de redução de inundações, teriam de ter capacidade para 1550 mil metros cúbicos de água.

Já o túnel com um quilómetro que nascerá entre o cruzamento da Estrada de Chelas com a Calçada da Picheleira e a Rua dos Amigos de Lisboa será uma alternativa à construção na Quinta da Montanha de um reservatório enterrado com volume útil de 70 mil metros cúbicos.
Ao todo estas duas obras irão custar, segundo a informação divulgada ontem, 57 milhões de euros e o objetivo é que sejam concretizadas entre meados do próximo ano e o final de 2019. Menos tempo durará a instalação de um coletor de reforço, com 2,5m de diâmetro, entre as avenidas de Berlim e Infante D. Henrique (junto ao Parque das Nações), outra intervenção considerada prioritária. Neste caso a previsão é de que as obras decorram entre o início de 2017 e meados de 2018.

O reforço e reabilitação de outros coletores e redes secundárias, a separação e controlo de caudais e o levantamento do cadastro e inspeção de infraestruturas são outras das ações estabelecidas no plano orçado em quase 170 milhões de euros. O financiamento, assegurou Fernando Medina, será feito através de fundos comunitários e verbas próprias, incluindo as que resultarem da atualização das tarifas de saneamento. O autarca salientou ainda que "A solução básica é mais económica do que era a anterior", uma vez que, embora o "volume total de investimento" esteja "perto" do previsto em 2008 - 153 milhões de euros - é "mais eficiente".

As obras estruturantes que são concebidas já não são para períodos de retorno (tempo até à ocorrência de um novo fenómeno de cheias) de dez anos. NO caso dos túneis, são períodos de retorno de 25 a 50 anos, exemplificou José Saldanha Matos, coordenador do consórcio que elaborara o plano e que o reviu.

Oposição lamenta adiamento
Menos confiante está Carlos Moura, vereador do PCP, que teme que esta solução venha a provocar cheias no local onde terminam os túneis e preferi ter mais bacias de retenção. "É um plano minimalista", remata.

Já António Proa (PSD) e João Gonçalves Pereira (CDS-PP) preferem não pôr em causa as opções técnicas, mas criticam o "tempo perdido" pelo anterior presidente da Câmara, António Costa (que saiu da autarquia a 1 de abril par se dedicar em exclusivo ao PS, tendo o você-presidente Fernando Medina assumido o lugar a 6 desse mês), por não ter executado a versão inicial do plano. Amanhã, nenhum deverá votar contra o envio da proposta para discussão pública.