Voto de Saudação 112 anos do nascimento de Fernando Lopes-GraçaSaudamos o centésimo décimo segundo aniversário do nascimento de Fernando Lopes-Graça, figura maior da cultura portuguesa, compositor, pedagogo, ensaísta, crítico, pianista, regente de coros, resistente antifascista e militante comunista.A obra de Fernando Lopes-Graça, enquanto compositor, musicólogo, pianista, maestro, professor, investigador, teórico, crítico de arte, marcou fortemente o século XX. E tal como a sua música, muito justamente apreciada e reconhecida internacionalmente, permanecerá como referência marcante e destacada no nosso País, também o seu exemplo de integridade e coerência revolucionárias permanecerá na memória de muitos como uma referência de todos os dias. Toda a sua obra de artista – cuja notável inspiração e criatividade tem raízes no património que investigou, inventariou e recriou da música popular portuguesa — está indissolúvel e impressivamente ligada à sua visão do mundo e à sua opção política e ideológica: desde as Canções Regionais às Heróicas, a obras como Em Louvor da Paz e Requiem pelas vítimas do fascismo.
Um dos aspectos mais admiráveis e exemplares na personalidade de Fernando Lopes-Graça é certamente a firmeza e a coerência das suas convicções e do seu carácter, dos seus princípios, do conjunto da sua criação intelectual e artística, da sua intervenção cívica e política. Lopes-Graça é um exemplo maior do intelectual livre que, por o ser em todas as circunstâncias, toma como sua a causa da emancipação e da liberdade do seu povo, a causa da luta contra o obscurantismo e a opressão, da luta contra a exploração.
Membro do PCP desde 1948, a sua adesão ao PCP não é mais do que a sequência natural da intervenção de alguém que, desde a juventude assumiu uma corajosa e intransigente opção democrática, antifascista, progressista. À data da sua adesão ao PCP, Fernando Lopes-Graça sofrera já as perseguições políticas, a prisão, o desterro, o exílio. O fascismo retirou-lhe o diploma de professor do ensino particular, vedou-lhe o acesso a cargos públicos – e mesmo quando lhe foi proposto dirigir os Serviços de Música da então Emissora Nacional, não chegou a tomar posse do cargo porque se recusou a assinar a declaração de «repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas» que o fascismo exigia aos funcionários públicos. O regime fascista vigiava e perseguia Fernando Lopes-Graça com o mesmo implacável ódio com que perseguia os resistentes clandestinos. Vigiava-lhe as intervenções, os passos, os sítios onde morou, as pessoas que contactava e o contactavam. As dezenas e dezenas de folhas do seu processo nos arquivos da PIDE — com relatórios de informadores que vigiavam o seu dia-a-dia — constituem um testemunho eloquente do temor que suscitava ao fascismo a sua personalidade prestigiada, firme e intransigente.
Toda a vida e toda a acção de Fernando Lopes-Graça são inseparáveis do núcleo fundamental das suas convicções, da sua inteligência e do seu génio criador voltado para o povo e para o futuro. As suas palavras, mesmo quando fala apenas de música ou de cultura são as de um revolucionário, como quando afirma: “uma cultura, qualquer espécie de cultura, é incompleta, viciada, unilateral, se só olha para o passado e recusa o presente, naquilo que ele tem ou possa ter de vivo, de criador, de fecundo, se não acompanha o presente no seu caminho de descoberta e de conquista para o futuro”.
Poucos artistas têm, como Lopes-Graça, em cada criação um acto de resistência. Que em Lopes-Graça é também resistência a qualquer submissão, a qualquer facilitação, a qualquer demagogia, a qualquer transigência de linguagem ou de ordem estética. É essa a atitude coerente com o profundo respeito que tem pelo seu povo: o desejo de que se aproprie das obras certamente belas, mas complexas e exigentes que realiza, obras que abram caminho, não obras que sigam trilhos já gastos.
Durante os meses de Outubro e Novembro, Lisboa será palco de um conjunto de iniciativas dedicadas a Fernando Lopes-Graça (1906-1994), co-organizadas pela Associação Lopes-Graça e pela Câmara Municipal de Lisboa; de destacar a Evocação realizada no passado dia 1 de Outubro, no Vozes ao Largo, com o Encontro de Coros dedicado a Lopes-Graça, e amplamente participado. Serão ainda realizadas outras iniciativas, descentralizadas pela cidade de Lisboa, no próximo dia 19 de Outubro, pelas 21 horas, no Teatro Aberto com o Concerto dedicado a Fernando Lopes-Graça com músicos da Orquestra Metropolitana. No dia 26 de Outubro terá lugar uma sessão na Biblioteca Municipal de Marvila, com o título “O Coro da Academia de Música e a prática Coral na segunda metade do Século XX”. No dia 13 de Novembro, será realizada uma sessão na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, com o tema “Fernando Lopes Graça, um percurso foto-biográfico”.
Reconhecendo a relevância histórica, cultural, evocando e honrando a sua vida, obra e o futuro emancipador que sempre defendeu, e a sua profunda acção na liberdade que ajudou a construir em todos os dias da sua vida de criador e revolucionário, a Assembleia Municipal de Lisboa, reunida no dia 16 de Outubro de 2018, delibera saudar o centésimo décimo segundo aniversário do nascimento de Fernando Lopes Graça.Lisboa, 10 de Outubro de 2018.
Os Deputados Municipais
Ana Margarida de Carvalho
Fernando Correia
António Modesto Navarro
Fábio Sousa