Assembleia Municipal de Lisboa
Foto GUSTAVO BOM/GLOBAL IMAGENS
Foto GUSTAVO BOM/GLOBAL IMAGENS
CML - Habitação - Urbanismo -
É preciso habitação a preço acessível para a classe média
11-04-2017 Ana Sousa Dias, DN

Manuel Salgado só acredita numa forma de contrariar o problema de desigualdade e de dificuldade de acesso à habitação: "a oferta de habitação pública a custos acessíveis, com volume que contrabalance os valores de mercado e seja uma alternativa para o arrendamento da classe média".

A conversa termina sem dar tempo para a explicação: como retirar os autocarros de turismo do centro histórico, ambição confessada mesmo no último minuto. "É para isso que estamos a fazer elevadores e queremos um funicular, para levar os turistas até aos pontos mais altos sem autocarros", diz Manuel Salgado.
O vereador, urbanista experiente, fala da cidade como um todo, de avenidas que vai abrir e da necessidade de moderar o uso do carro no centro. Vai ao pormenor quando revela que o quarteirão da Suíça (Praça da Figueira/Rossio) vai entrar em obras.

  • É como urbanista que intervém em Lisboa, não tanto a pensar nesta ou naquela obra?

É o que me move. Sempre estive mais interessado na escala urbana do que na escala do objeto ou do edifício.
A minha prática profissional foi muito sobre projetos de grande dimensão em que a componente da integração urbana foi importante, fosse o Centro Cultural de Belém, fosse nas Antas ou na frente Marítima de Ponta Delgada. O que me seduziu no desafio de António Costa para integrar a lista (para a CML, em 2007)] foi a possibilidade de integrar uma equipa para pensar a cidade globalmente.

  • Estar no poder é diferente de estar de fora a dizer: deviam fazer isto?

É essa a diferença. Tive grandes frustrações porque trabalhei quase sempre com câmaras municipais, e dizia-lhes: podem fazer assim, podem fazer assado, têm aqui uma oportunidade. E depois as coisas não andavam. Quando me foi feito o convite, pensei, "bom, vamos lá ver se consigo fazer alguma coisa".

  • Acha que já teve influência na cidade?

Foram feitas algumas coisas relevantes mas há muito mais por fazer. O importante é que se conseguiu ir construindo uma visão para a cidade.

  • É de embelezamento que está a falar?

É muito mais do que isso. A visão - pode parecer um slogan- era "uma cidade para as pessoas e uma cidade de bairros". O grande desafio é como melhorar as condições de vida das pessoas e a coesão dos bairros. Este tem sido o motivo subjacente ao conjunto de intervenções e cruza vetores que têm que ver coma coesão social, a coesão na cidade, a igualdade de oportunidades, a coesão territorial.
Grande parte dos lisboetas conhece mal a sua cidade.

  • Conhece mal em que sentido?

Há territórios, como pòr exemplo a zona toda da freguesia de Santa Clara, do Lumiar ate às Galinheiras, que estou certo que 90 por cento dos lisboetas não conhecem. A Alta de Lisboa é qualquer coisa que fica para lá do aeroporto, que as pessoas não conhecem, não sabem que faz parte da cidade. A coesão territorial é um dos aspetos muito importantes na cidade mas há outros. Mas posso falar também das questões da saúde pública.
Se for ao médico, uma recomendação genérica é "ande a pé". E anda a pé aonde? Se os passeios tiverem carros estacionados, se estiverem cheios de sinais de trânsito ou bocas de incêndio, se forem muito estreitos, é difícil.

  • Em vez de andar de carro?

Em vez de andar de carro.

  • Mas a questão não está nos transportes públicos?

Os transportes públicos, infelizmente, estão muito longe de responder às necessidades de Lisboa. Vai demorar algum tempo mas é possível melhorar o transporte público em Lisboa. Temos um projeto com vários níveis de intervenção: redes de bairro, corredores busmais eficientes, as linhas normais, a renovação da frota, mais motoristas.
É importantíssimo completar a rede de metro e gerir de outra forma a ferrovia e a ligação com os outros modos de transporte. Reforçar a vida dos bairros é importante para reforçar as comunidades locais. Há uma percentagem elevada de idosos que não vêm à rua com medo de escorregar na calçada e nós temos um quarto da população com mais de 65 anos. Estamos a pôr pavimentos menos escorregadios.

  • Os preços das casas estão a aumentar, afastando as pessoas do centro. Como é possível evitar isso?

A cidade está a atrair muito investimento, o capital estrangeiro está a investir mais e há uma valorização. Isso coloca problemas de desigualdade e de dificuldade de acesso à habitação.
Só acredito numa forma de contrariar isso: uma oferta de habitação pública a custos acessíveis, com volume que contrabalance os valores de mercado e seja uma alternativa para o arrendamento da classe média.

  • A gentrificação é hoje o demónio das cidades. Como pode coexistir com uma cidade viva?

O fenómeno da gentrificação tem muitas décadas, em várias cidades do mundo. É um fenómeno que se está a acelerar por força das novas formas de viver a cidade. Dentro de pouco tempo, 70 por cento da população mundial viverá em cidades. A mobilidade que as pessoas têm entre cidades, a distância do local de trabalho ao local de residência, com a utilização das novas tecnologias, e a mobilidade do emprego levam a estas transformações. As viagens são muito mais baratas, a possibilidade de as pessoas mudarem de país, irem e virem, viverem um tempo numa zona da cidade, também aumenta. Este fenómeno vai continuar. A ideia de que o bairro deve ser para os filhos do bairro está ultrapassada. Dantes, os bairros tinham o emprego, a escola, a igreja, a farmácia, a mercearia da esquina, e eram fechados. Hoje são completamente abertos. O caso mais chocante da gentrificação verifica-se em Alfama, onde há uma população tradicional, infelizmente de fracos rendimentos. O bairro é muito atrativo para as pequenas permanências, porque são casas pequenas sem condições para que as famílias com filhos se instalem.

  • Com muita ocupação temporária?

Exatamente. A primeira operação de renda acessível que vamos fazer é junto ao Martim Moniz. Para isso é preciso que existam edifícios públicos ou terrenos no centro histórico, que não existem ou são muito poucos. A Câmara possui, nos bairros de realojamento, 23 mil fogos. Foi necessário construir esta habitação toda, no programa de erradicação das barracas dos anos 1980/90. Agora é preciso fazer mais habitação a apostar na classe média, que não tem acesso à habitação social mas que também não tem capacidade para ir ao mercado, muito inflacionado. Vamos iniciar o concurso nos próximos meses, o primeiro fogo estará pronto dentro de dois, três anos. E era importante dinamizar de novo as cooperativas de habitação, é uma alternativa importante.

  • O que se passa com o edifício da Praça da Figueira que dá para o Rossio?

Levantaram a licença para fazer as obras de recuperação do telhado e das fachadas há duas semanas. Espero que em breve o edifício - o chamado quarteirão da Suíça - comece a ser reabilitado. Mas não lhe respondi à pergunta sobre o embelezamento.
Quando compra uma roupinha, compra uma qualquer ou prefere uma que seja bonita? Nós podíamos mudar a iluminação pública para ter maior eficiência e reduzir os gastos de energia, reorganizar a circulação, substituir as redes de telecomunicações para não andarem penduradas nas fachadas, fazer tudo isso e repor tudo igual ao que era. Ou queremos fazer os passeios confortáveis e pôr mais árvores? Devemos fazê-lo bonito ou feio? Eu prefiro fazê-lo bonito.
Não havia um banco para as pessoas se sentarem no Saldanha. Pusemos bancos a pessoas usam-nos. Se calhar não tinham a noção de que eles faziam falta, mas fazem.

  • Lisboa pode melhorar, mesmo cheia de turistas?

Eu acredito piamente que sim. Lisboa vai ficar melhor, vai ficar mais segura, mais confortável, com melhor qualidade de vida para os lisboetas. Um grande esforço que há para fazer é que os turistas se dispersem pela cidade e não estejam concentrados apenas naquela zona histórica. Há vários projetos nesse sentido. Uma das minhas ambições era estancar o acesso dos autocarros de turistas ao centro da cidade.